homenagem a alberto da cunha melo 3

Quando escolheste
a mudança, lembras-te?
Temias a bala
Azeda do sol.
E enquanto prosperam
Arsenais, negócios
E passam ilesos
Eleições, novembros
Medalhas dos técnicos
Migalhas do povo,

Moças de vinte anos
Depilam-nos os pelos
Nos subúrbios da ordem,
Da floresta afogada
Pelas tranças caídas
A tropeçar nos alarmes
Nos arames que circundam
O cárcere, a esmurrar-se
No banho para não
Masturbar-se na prata
Da cruz escurecida
Entre os seios de blusa.

Este assistir a seco
À própria percepção
De se extinguir no coice
Do laudo rotineiro
Que roça a eternidade
Faz-me pensar que um dia
O abutre que aqueço
Ao calor do meu sangue
Me vai cobrar o preço

E me aquecerá
O esqueleto morto
E me lavará
Com as alegrias
Que deixaram outros
Que são o pão nosso
Para cada dia.

Nessa esperança
me adormeço
Minutos antes
Do expediente.