Às vezes penso que estas mãos –
Forçados ermos, hora a hora –
Podem roubar ainda ao barro
A cidade, longínqua agora.
Às vezes vejo-as, frágeis mãos –
Pouco suportam as palavras –
Erguerem ruas, colorirem
Risos brancos em noites claras...
Olho nos olhos os amigos
Que ficaram: quietos fitam
-nos, esquecidos. Vejo
-te na praia: morenas lágrimas agitam
-se no mar, ardem minhas mãos
Aquecendo-se ao fogo do passado.
As mesmas ilusões que no regresso
Trouxeram nosso corpo incendiado...
Desenho a casa, os animais,
Flores nos trilhos das crianças
Soando no silêncio tenebroso
Do soalho de sangues rituais.
Se tu soubesses como vejo
A terra, nossa! Cais – e mesmo
Sem haver barco – no deslumbre;
Se em ti sangrasse esta saudade,
Soasse o banzo desta hora,
Seria um arco o vão retorno
Sobre a verdade projectando
O derradeiro gesto, o desacato...
Pois a cidade voltaria
A iluminar a tua voz
Feminina, a alegria extinta
Pura nos olhos solitários...
Se tu sofresses estas horas
Como sofreste sempre,
Se renascesses, hoje,
Nas tuas mãos desenharia
O ventre limpo da cidade,
Cacimbo e sol, seios molhados
Em noites calmas, arrastados
Por tuas mãos à infinidade.